Ciúme
Tem uma família que mora na esquina. Casal, filha adolescente, filho pequeno. O cara tem moto. Volta e meia vejo ele empurrando o gurizinho na bicicleta pela rua. Vejo ele com o filho na volta da moto. Fico pensando, se o Antônio ia gostar de moto, se ia ficar na minha volta quando eu tivesse que mexer na mirage, como tenho que fazer agora. Na verdade que toda vez que vejo um pai com o filho pequeno fazendo qualquer atividade, fico me imaginando com ele, lembro de todas as programações que tinha feito na minha cabeça com ele, andar de moto, acampar, assistir rugby, ir ao cinema, ler, em como ia ser ensinar ele, em aprender com ele, em ver o mundo pelos olhos dele. Acho até que a palavra certa não é ciúme, é meio que uma saudade do que não existiu, uma nostalgia do que não houve, uma tristeza do que poderia ter sido e não foi. Que vontade de não fazer nada, de deitar e esperar, pra ver e tem algo depois de tudo e se vou encontrar ele.
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