Antônio
Do começo. Em junho de 2019 descobrimos a gravidez, tinha 37 anos e ia ser pai. Eu tinha a idade que meu pai tinha quando morreu e descobri que ia poder passar por tudo que não pude como filho. Comecei a sonhar em como seria, comecei a criar expectativa, comecei a me preparar. Ela estava com 1 mês.
Quando fomos fazer o ultrassom para identificar se havia problema, descobrirmos que ele seria especial. Ele tinha encefalocele occipital chiari 3, uma má formação ou expunha parte do cérebro dele. Ele poderia não sobreviver à gravidez, ele poderia não sobreviver ao parto, ele poderia não sobreviver a cirurgia que deveria fazer ao nascer. Se sobrevivesse a tudo, poderia ter problemas mentais, surdez, cegueira, problemas de locomoção, ou numa rara possibilidade (que poderia até servir de prova que deus existe) poderia ser o mais normal possível.
Antônio, o meu avô materno que foi a minha figura masculina quando meu pai morreu, foi o nome que escolhemos quando descobrimos o sexo dele num exame que fizemos na esperança de ver um diagnóstico melhor.
Faz parte do complexo hospitalar Santa Casa de Porto Alegre o Hospital da Criança Santo Antônio, começamos a fazer acompanhamento lá para oferecer o melhor pra que ele tivesse uma chance. Foi um período duro, sofrido, onde só com o apoio dos amigos e família que ajudava na esperança.
Durante uma viagem a Porto Alegre para consulta a bolsa rompeu. Estava completando 6 meses. Tentaram segurar ele pra ter mais chance, mas ele não esperou mais de 2 dias.
Na madrugada de 28 de novembro de 2019 nasceu Antônio, o meu Antônio, o meu filho. Mas ter só 6 meses e um problema sério foram mais do que ele pode suportar. Ele se foi durante o parto. Ele se foi, e eu fiquei, com o coração partido.
Toda a alegria se foi.
Cada vez que vejo um pai com seu filho pequeno, eu lembro de todos os meus planos que foram desmanchados. Cada vez que eu falo nele (até agora enquanto escrevo no escuro do nosso quarto) as lágrimas me lavam o rosto, a garganta seca e fecha, e o peito dói, dói muito.
Eu sempre senti tristeza e saudade do meu pai, mas até 28 de novembro do ano passado eu nunca tinha entendimento da dimensão da dor da minha avó ao me ver e lembrar do filho dela.
De tudo que me dava prazer, só sobrou um gosto amargo e um sentimento de culpa, de que talvez eu não tenha sido o suficiente como pai para proteger o meu menino.
O meu filho,o meu coração, o meu Antônio.
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